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O patinho-feio incluído na família
(Dra. Valéria Barcellos - Psicóloga Clínica e Psicodramatista)

O patinho-feio incluído na família

Texto indicado aos pais e familiares de crianças com dificuldades no desenvolvimento global
( ex.: fala, comportamento, movimentos, etc.)

Nós seres humanos, somos essencialmente gregários, temos essa mania de casar e ter filhos.

O primeiro filho é a concretização dos laços sangüíneos entre as famílias dos pais, razão pela qual é grande a expectativa que gira em torno dessa barriga que cresce.

Como é possível suportar os intermináveis nove meses de espera para tornar-se tio, tia, avó, mãe e pai? É simples: preenchendo as lacunas do tempo da natureza com muita paixão e fantasia, transformando o desconhecido bebê no projeto ideal de pessoa que se gostaria de ter (ou ser) como neto, sobrinho, filho, vizinho, etc.

Ilustrativa é a lenda do patinho-feio, nos contos de Andersen na qual um ovo de cisne foi chocado junto aos ovos de uma pata. O ovo "estranho” demorou mais a se partir, saindo lá de dentro um bicho feio e esquisito, diferente de toda a ninhada. Embora a pata-mãe tenha aceitado como legítimo “filho-feio”, todo o galinheiro o rechaçava. O patinho-feio foi banido do grupo e, humildemente, partiu em busca, de outras aves que o aceitassem. O tempo passou e o inocente cresceu, transformando-se em um lindo cisne que, finalmente encontrou os seus iguais.

Esta estória simboliza o que aconteceu no reino animal, onde o diferente é rejeitado e visto como uma ameaça à identidade grupal. O patinho-feio é hostilizado pelo grupo social, pois não confirma a identidade do mesmo, apesar dele não ter a mínima idéia da ordem a que pertence - “é que Narciso acha feio o que não é espelho” (Caetano Veloso).

Voltando-se ao contexto dos animais racionais, o que acontece na família, cujo filho é diferente, uma criança especial*?

Ás vezes os pais ou conhecidos observam na criança dificuldades no desenvolvimento da fala, dos movimentos, do comportamento, etc. Nesses casos, é bastante comum que se estenda à necessidade dos cuidados maternos, prolongando o vínculo de dependência mãe-bebê.

E assim, instaura-se o pânico familiar: onde está aquele bebê tão desejado, objeto das expectativas, das fantasias e dos sonhos de todos?

Os pais, perdidos, desamparados, vão ouvindo diversos palpites dos conhecidos e familiares (leigos) que apelam para explicações espirituais (ex: “encosto”, “karma”, etc); falam do céu, já que na terra ninguém parece conhecer solução. Muitos dos “palpiteiros” acreditam que um dia vai dar um “click” mágico e a criança ficará curada ou normal. Outros, piores, acusam indiretamente os pais pela falta de carinho e paciência com o filho doente.

Os pobres pais, submetidos à crueldade social, têm lugar garantido no banco dos réus, acusados do “crime” de produzir um filho diferente da maioria das crianças.

Então, inicia-se uma verdadeira “gincana diagnóstica”, sendo comum conhecer pais que, buscando respostas e soluções para o problema do filho, consultam inúmeros profissionais, incluindo padres, curandeiros, pai-de-santo e psicoterapias pseudo-científicas.

Nos casos de atraso global do desenvolvimento, quanto mais precoce o diagnóstico, conhecendo-se o paciente e planejando-se o tratamento, maiores são as chances de um melhor desenvolvimento das crianças e dos pais.

Nos meus quinze anos de profissão, atendendo família com crianças especiais, não conheci pais mal intencionados em relação aos filhos; Por outro lado, tive contato com um grande número de pais desorientados, que não sabiam como educá-los e compreendê-los. Tal problema, aliás, pode ser observado em quase todos os pais, inclusive aqueles que têm crianças normais.

Nesse artigo me atenho às crianças especiais e suas famílias que lutam, confusas, em busca de alguém que possa explicar as razões do comportamento do filho, querendo conhecer aquela criança diferente.

A Tarefa do Médico

As especialidades clínicas indicadas para os casos graves são os psiquiatras da infância e os neuro-pediatras. O ideal é que o médico além de fazer o diagnóstico diferencial** da criança, saiba explicá-lo a contento para os pais e exponha um projeto ou planejamento do tratamento da criança, que, freqüentemente necessita ser tratada por uma equipe multi-profissional. Esse médico é chamado de médico de cabeceira, pois ele é quem centraliza e coordena o tratamento como um todo. Se em algum momento os pais desanimarem, colocando em dúvida o que vem sendo feito, estará lá o médico de cabeceira para retomar o enquadre aplacando a ansiedade dos pais.

O médico de cabeceira indica e distribui o caso para outros profissionais da área de saúde, como, por exemplo: para os psicoterapeutas (que atenderão a criança e a família), para as fonoaudiólogas, fisioterapeutas e para tantas outras especialidades que a criança necessitar.

A tarefa mais difícil para o profissional é fazer o diagnóstico diferencial; e para os pais, o mais difícil, é aceitá-lo. Freqüentemente os pais decepcionados e feridos, passam a falar mal do profissional que transmitiu a “indesejável” mensagem. Então, magoados, tornam-se caçadores de profissionais que comuniquem o que eles suportem ouvir. Assim, com esse volume de insatisfação, os pais nadam contra a maré a fim de afastar-se da inevitável realidade. Enquanto isso, a criança especial perde um tempo precioso, deixando de receber o tratamento coerente indicado pelo médico de cabeceira, atrasando ainda mais o seu desenvolvimento em relação às crianças de sua idade.

Dá para imaginar o calibre do sofrimento psíquico que amargam esses pais e seus familiares?

Psicoterapia familiar

Será que estou conseguindo transmitir o quanto esses pais e suas famílias necessitam de acolhimento e compreensão de sua dor? Espero que sim. Uma das funções do psicoterapeuta familiar é esta; outra é de orientar os pais, com muita disposição para compreender suas dificuldades, para que reorganizem a rotina familiar e coloquem limites. Não cabe ao psicoterapeuta julgá-los ou criticá-los e, sim, buscar, com a orientação, aliviar a enorme culpa que sentem.

O psicoterapeuta familiar investiga no atendimento, a forma como os pais e irmãos da criança especial a compreendem, convidando-os a refletir, à busca da melhor maneira de lidar com cada dificuldade de convívio que essa criança determina no ambiente familiar.

Os psicoterapeutas têm que ter a humildade e reconhecer que quem conhece de verdade a criança especial, pela experiência de conviver vinte e quatro horas por dia com ela são os pais. A intervenção terapêutica é mínima; Ela é construída artificialmente, visto que o “setting” terapêutico é como um laboratório de variáveis e parâmetros relativamente controlados.

Quando a família compreende o funcionamento psíquico da criança – meio caminho andado – inicia-se a remissão parcial da monstruosa culpa que carregam, permitindo que cada componente da família abra um espaço interno para novas idéias, pos vezes muito criativas, de como manejar a criança no dia-a-dia e elaborar um pouco da imensa angústia a que estão submetidos.

Os outros filhos ou irmãos

Uma cuidadosa atenção do psicoterapeuta familiar deve ser dedicada aos irmãos da criança especial, protegendo-os para que tenham um desenvolvimento saudável, já que não devem ser prejudicados em benefício do irmão especial. Como a “doença” ganha da “saúde” é necessário reverter à situação, batalhando a favor de um ambiente familiar continente às mais diversas demandas. A família, então, passa a ter chance de restabelecer o fortalecimento da relação, num ambiente familiar mais construtivo e saudável.

Aceitação Social ou o Preconceito

Quando a família compreende o diagnóstico da criança especial e atende às indicações de terapias que se fazem necessárias, baixando as expectativas na relação, procurando sempre maneiras de conviver com os novos embates que se apresentem no dia-a-dia, então esse grupo absorveu o “diferente”, aceitando-o e adaptando-se ao seu crescimento.

Essa família descrita acima está pronta para enfrentar o ambiente social, pois é com aceitação interna da criança especial no grupo familiar que surge um meio possível para desencadear aceitação externa, social.

É quase impossível viver com a criança especial na sociedade sem que isto gere curiosidade e por vezes hostilidade e repulsa, forma de defesa psíquica em relação ao diferente que ameaça a identidade individual e grupal. Portanto todo o preparo é pouco e a cada confronto a família “especial”, de forma construtiva, experimenta e aprende novas formas de defesa na relação com os outros. Sem ter a intenção, essa família acaba bulindo e questionando o preconceito do ambiente social, até pelo simples fato de levá-la consigo em variadas situações.

Os principais focos nas terapias para qualquer criança especial são basicamente: colocação de limites, atividade de vida diária, estimulação da linguagem e da autonomia.

O trabalho psicoterápico nesses casos, comumente se estende por toda a vida como uma forma de desenvolvimento e manutenção da sociabilidade.

Assim, por fazermos parte do reino animal, pode surgir uma irregularidade da natureza, um ovo de cisne chocado junto aos ovos de uma pata, como seres humanos pode acontecer algo semelhante. A maternidade é um sorteio genético aonde dois gametas se unem formando um ovo, que é “chocado” no útero da fêmea. Há de estar claro que todos nós humanos corremos esse risco ao produzir um outro ser, pois não temos o controle sobre nossos genes***. É também no momento do parto ande o risco de morte ou doença da mãe e do filho é possível. Tudo isso sem levar em conta outras doenças como por exemplo: toxoplasmose, rubéola, etc, que podem prejudicar o desenvolvimento “normal” do embrião, ainda na “chocadeira”.

O preconceito nada mais é ao meu ver, que uma defesa psíquica desencadeada a partir da dificuldade de confronto com a realidade nas situações que ameaçam a identidade individual e grupal. É uma maneira de afastar de si e depositar no outro, a probabilidade de que um fato como produzir uma criança especial, possa ocorrer com qualquer um de nós.      

*Denomina-se criança especial, neste artigo, todas aquelas que apresentam transtornos no desenvolvimento global, tanto de ordem psíquica, física, orgânica ou funcional, quanto as que apresentam uma mescla entre quaisquer destes.

 **Diagnóstico diferencial: observação dos sintomas para se estabelecer critérios de classificação das doenças.

 ***O aconselhamento genético, feito pelo médico geneticista é indicado nos casos de casamento consangüíneos, como prevenção de possíveis anomalias.

Valéria Barcellos
Psicóloga Clínica e Psicodramatista
Especializada em Casal, Família e Orientação de Pais
e-mail: valeriabarcellos@yahoo.com.br

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